Food Rules! (and the Rules of Food)

No primeiro esboço de texto que escrevi para este blog, a primeira frase era algo como “A comida era uma coisa simples. Devia ser simples.” Um desabafo em jeito de afirmação intuitiva. Pouco depois comecei a deparar-me com versões da mesma afirmação em inúmeras referências, passando pelo Little Book of Shocking Food Facts, artigos de opinião, instituições e em Food Rules (Michael Pollan, 2009), referência fundamental para este novo projecto ainda em fase embrionária, Quanto baste. A pouco e pouco, de forma mais ou menos directa, quase todo o material encontrado referente a este meu objecto de estudo aponta para essa primeira frase, espontaneamente registada, que apesar de tudo nunca chegou a ser publicada.

Apesar de todas as afirmações e conclusões expostas num trabalho deverem sempre estar devidamente fundamentadas e referenciadas, a partir do momento em que dedicamos grande parte do nosso tempo ao estudo desse objecto acabamos por naturalmente retirar as nossas próprias conclusões, resultantes de um misto de ciência e empirismo. Chamem-lhe senso comum, lógica. Depois é uma questão de tempo até encontrar naturalmente a validação necessária para essas conclusões.

Em Little Book of Shocking Food Facts, a afirmação aparece num contexto objectivo, referente ao actual paradigma da indústria alimentar e da consequente crise económica, social e ambiental. Em Food Ruleseaten in our time has gotten complicated” apresenta-se como introdução ao conteúdo do livro que é, nada mais nada menos, que um arquivo de pequenos saberes, do senso comum e da lógica que acima mencionei, sobre o quê e como comer. A lógica deste pequeno livro deveria ser a nossa lógica de pensamento, como aliás sempre foi até há poucos anos atrás. É por essa razão que o elegi como pedra basilar deste projecto.

A ciência é falível e a ciência nutricional, como Michael Pollan a descreve, encontra-se aproximadamente onde a cirurgia se encontrava em 1650 – muito promissora e muito interessante de assistir, mas não o suficiente para deixarmos que operem em nós.
Numa altura em que a nova vaga de “informação” sobre a alimentação se encontra sob a forma de uma massa espessa de indefinições, contradições e muitos dados insignificantes à mistura, corremos o risco de continuar a revolver nessa massa à procura de alguma certeza em vez de parar, limpar as mãos, dar um passo atrás e ouvir e olhar para o lado, para os nossos avós, bisavós e até mesmo pais. Esquecemo-nos de olhar para a história e para a cultura e verificar que, apesar de tudo na indústria alimentar ter mudado nos últimos 50/60 anos, nós – o nosso corpo, o nosso organismo, a nossa mente – permanecemos iguais, o que significa que está totalmente ao nosso alcance comer bem, no sentido mais lato do termo. Só temos de olhar para o sítio certo e perceber a lógica da coisa, passo o coloquialismo. Quero simplesmente com isto dizer que, apesar de tudo o que hoje temos que não havia há uns anos atrás, gerando os conflitos e incertezas já conhecidos, o que havia na altura continua a estar aqui disponível para nós. E acredito que, com isso e com toda a sabedoria que, apesar de tudo, a mais recente informação já nos disponibiliza, temos tudo para comer bem, se não mesmo melhor que nunca. Temos tudo para criar a sinergia perfeita entre o passado e o presente.

Por último, acredito que cada um de nós deve ser capaz de estabelecer as suas próprias conclusões, definir as suas pequenas verdades e viver de acordo com elas, não porque nos dizem que o devemos fazer, mas porque sabemos que funcionam.

Ninguém deveria ir ao supermercado e fazer as suas escolhas com base numa lógica de medicamentos, seja para curar a saúde ou para curar as emoções. Em contrapartida, devemos saber ouvir o nosso corpo e ter a capacidade de distinguir as necessidades dos nossos desejos para não basearmos as nossas escolhas descurando o primeiro para responder exclusivamente ao segundo. Devemos ir ao supermercado para comprar comida, porque precisamos dela para viver e porque dela retiramos um enorme prazer.