O cunho lusitano

Diversas indústrias alimentares lançam a determinada altura produtos cujo principal chamariz é o prefixo luso- ou qualquer espécie de carimbo “Portugal related”, derivado do facto aparente de que tal estatuto, por mais irrisória que seja a sua presença efectiva no produto, é garantia de sucesso. E como o produto não se vende assim mesmo, vem sempre incontornavelmente acompanhado por todo um merchandising altamente elaborado, ofuscando qualquer dúvida sobre o “nacionalismo” da coisa, sendo esse a verdadeira pièce de resistance para o sucesso das vendas.

Com isto alguns consumidores poderão adquirir o produto, na minha opinião, por uma de três principais razões: engano, ingenuidade ou curiosidade. Alguns, ainda que seja difícil conceber essa hipótese, poderão sentir alguma espécie de alívio por acreditarem que, uma vez que o produto comporta o rótulo lusitano, será certamente algo mais saudável e menos processado – isto é, se estiverem de todo familiarizados com o termo. Outros, pelo gosto da comida portuguesa aliado à curiosidade pela novidade, caiem na tentação de experimentar a coisa e, uma vez que a comida sofre desta coisa perversa em que muitas vezes o prestígio do nome se sobrepõe à apreciação justa do sabor (para o bem e para o mal), acabam por apreciar o produto em toda a sua (falta de) autenticidade. Outros podem simplesmente optar pelo produto porque sabem que tem exactamente o mesmo sabor que todos os outros salvo o pequeno extra “luso” mas que tanto poderia ser francês, inglês ou chinês. Pensando bem, arrisco a dizer que qualquer um destes rótulos teria o mesmo ou maior potencial de sucesso para os consumidores desta categoria.
Fora estas três hipóteses, não estou a ver que mais alguém possa optar por este tipo de produto como alternativa a comida portuguesa, isto é, um cozido, um arroz de polvo ou mesmo um autêntico prego no pão. Também pode haver quem queira “iniciar” o pai ou a avó no mundo maravilhoso dos estabelecimentos alimentares de “comida” processada, persuandido-os assim com o barulho das luzes.
No mundo em que a indústria alimentar se encontra cada vez mais estandardizada, as exigências baixam porque a qualidade é baixa mas satisfatória para crescente maioria dos seus consumidores que não possui uma cultura gastronómica nacional presente nas suas escolhas alimentares diárias. Para esses a novidade tem um peso enorme e o cunho lusitano carimbado num produto, poderá paradoxalmente ser extremamente apelativo. A nossa mente é bastante previsível no que diz respeito à tomada de decisões. Escolhemos conforme aquilo que conhecemos ou a partir das nossas referências. O problema é que, ou conhecemos pouco ou pior, temos más referências.

Pergunto-me qual seria o sucesso do Mac Lusitano se este fosse com pão alentejano e recheado com iscas ou morcela de sangue, queijo da ilha ou – Deus nos livre! – algum peixe que não seja douradinhos ou calamares, daqueles com cabeça e espinha.

Caso de estudo: Mac Lusitano

redes sociais – onde tudo começa.

Bom saber que o nosso melhor são batatas fritas processadas às rodelas, paio, queijo flamengo e um sundae tipicamente português com doce de ovos, só porque sim.

A versatilidade de ser português em todo o seu esplendor.

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“Não é novidade afirmar-se que a cozinha faz parte integrante da maneira de viver de cada povo. Uma coisa parece certa: não há civilização sem uma cozinha. Ou melhor: não há cultura. Porque a culinária é uma arte e, como qualquer outra, não depende do aperfeiçoamento material. Evolução e síntese de um grande e paciente esforço que liga o homem com as suas tradições seculares, constitui, juntamente com a língua, o mais forte sedimento dum espírito nacional.” José Quitério, Livro de Bem Comer

D.O.P é um espaço onde a alimentação e a alma se fundem em português. A partir da recolha de textos, crónicas, estudos, filmes e outros tantos objectos propícios ao tema, proponho-me a analisar o panorama actual da relação entre nós e a nossa herança gastronómica, estabelecendo sempre um paralelismo entre o passado e o presente, na tentativa de decifrar um possível futuro.

Circunscrevendo a informação num âmbito puramente social e cultural, pretendo por fim estabelecer uma ponte entre o fenómeno e o design de comunicação, procurando compreender as dinâmicas inerentes e de como o design poderá contribuir formal e/ou conceptualmente para a justa difusão da nossa cozinha regional, realçando o seu valor em todas as suas frentes – nutricional, histórica e gastronómica – de forma sustentável e nunca utópica ou fundamentalista, defendendo acima de tudo o prazer de comer o que sabemos ser nosso.

Este blog insere-se no projecto A.3 – WE WILL DESIGN da disciplina de Design de Comunicação V da Faculdade de Belas-Artes de Lisboa.